Por: Irmã Loiva Urban – diretora do Colégio Notre Dame Ipanema
Era semana santa de 1816. Maria Rosa Júlia Billiart, fundadora da Congregação das Irmãs de Notre Dame, estava doente fazia uns três meses. Enfraquecida, guardava o leito, falando pouco, rezando, sorrindo e sofrendo. Na madrugada do dia 08 de abril, segunda-feira, pelas 3 três horas, entregou sua vida ao bom Deus.

Francisca Blin de Bourdon, co-fundadora, ao anunciar a sua morte, informa que Júlia faleceu confortada pelos sacramentos da Igreja, na idade de 65 anos. Os funerais aconteceriam no dia seguinte, pela manhã, na Igreja de São José, em Namur, na Bélgica. O necrológio, anexo, apresenta uma síntese da vida da religiosa, menciona a sua paixão pela catequese, pela educação cristã, os seus 22 anos de paralisia, a sua invencível paciência. Informa, ainda que Júlia confiou a Congregação à Santíssima Virgem Maria e à Divina Providência. Portadora de uma piedade simples, mas sólida, uma grande confiança no bom Deus e um zelo ardente pela unidade das irmãs e de suas escolas, com fortaleza de ânimo e serenidade, ela faleceu cantarolando o Magnificat (Lucas 1, 64-55).

Ao amanhecer, divulgando-se a notícia da morte de Júlia Billiart, o povo se encarregou do panegírico: “Morreu a santa! Morreu a santa!”
Que Santa Júlia Billiart interceda por nós, junto ao bom Deus, de modo que possamos viver e morrer na alegria do bom Deus.
ÍNTEGRA DO TEXTO DO NECROLÓGIO*
Jesus, Maria e José. No ano da graça de 1816, na casa sede de Namur, no dia 8 de abril, em torno das 3 horas da manhã,
faleceu muito piedosamente, aos 65 anos de idade, a Reverenda Madre Maria Rosa Júlia Billiart, fundadora e superiora geral das Irmãs de Notre Dame, depois de receber os sacramentos de nossa mãe, a Santa Igreja.
Essa virtuosa filha, nascida na aldeia de Cuvilly, situada na antiga Picardia, de pais honestos e cristãos fervorosos, começa, com toda a ternura, a amar a Deus desde os seus primeiros lampejos de razão. O Senhor, cujos desígnios são sempre misericordiosos, sempre sábios e sempre poderosos, designou Júlia a uma grande obra e, para isso, quis prepará-la através de longas e duras provações. Ele permitiu que seus dedicados pais, arrasados com tantos reveses, caíssem no infortúnio: esse triste acontecimento obrigou a piedosa filha a se dedicar a trabalhos árduos e incessantes, os quais ela suportou com incansável paciência para aliviar a miséria desses pais. Mas nem chegou ela a completar 25 anos de idade, um terrível acidente, sempre dirigido pela insondável Providência do Todo Poderoso, faz com que suas condições, cheias de saúde até então, venham gradualmente a se enfraquecerem até o ponto de, com a idade de 30 anos, deixar Júlia num estado de prostração e de enfermidade tão grave que a faz ficar durante 22 anos, permanentemente acamada num leito de dor. Devastada com tantos sofrimentos que pareciam estar todos voltados contra ela, sua invencível paciência, sua doce e inteira resignação, longe de afastá-la, ainda que por pouco, da Santíssima Vontade de um Pai que escolhe seus eleitos apenas para santificá-los, ao contrário, só recrudesce, atraindo-a para íntimos diálogos com o autor de todas as graças que a unem a Deus por laços para sempre indissolúveis. Finalmente, tendo chegado o tempo marcado pelos adoráveis decretos da Providência, Deus põe um fim a essas duras provações, sem falarmos em muitas outras que transcorrem em silêncio: Júlia recupera a saúde através de um acontecimento que sempre se acreditou ser de ordem sobrenatural.
Desde então, Júlia tratou de responder à vontade de Deus que a incumbe da educação cristã de moças pobres pelas quais devotava tanta consideração que, durante sua longa enfermidade, ela as chamava para junto de seu leito para catequizá-las. Júlia se une então a algumas moças voluntárias com as quais começou o trabalho de seu precioso Instituto sob a proteção da Santíssima Virgem Maria e que a Providência Divina, a intenções tão puras, protegeu tão prodigiosamente que, em pouco espaço de tempo, ela construiu 14 casas deste Instituto.
Uma piedade simples e sólida, uma ardente confiança em Deus, um extremo zelo para a glória e a salvação das almas, uma vigilância contínua em todos os estabelecimentos de sua congregação, para aí manter, no meio de suas irmãs, o espírito de seu Instituto, o que sempre caracterizou essa forte alma.
Por fim, uma doença muito grave que se arrastou por três meses acomete uma alma elevada a Deus com todos os seus sentimentos e que Ele por sua graça sustenta até terminar essa preciosa vida. Tantas virtudes, tantos santos e incansáveis trabalhos só podem nos fazer reconhecer sua bem aventurada morte. Porém, se alguma mancha ainda resta a pagar frente a essa justiça infinita que julga todas as justiças, deixemos para a caridade de seus fiéis, ela que tão bem a mereceu, a fim de que descanse o mais breve junto a Deus que é a própria caridade.
*Tradução: Solange Perdigão