Por: Irmã Loiva Urban – diretora do Colégio Notre Dame Ipanema
Labirintos são encontrados na história desde a antiguidade em ânforas, pinturas rupestres, em ossos, em rochas e jardins. E desde a Idade Média, também em Igrejas. Os labirintos seguem um mesmo modelo. O tema tornou-se famoso pelo mito do monstro Minotauro, de Cnossos, na antiga ilha de Creta.
Labirinto remete-nos a caminhos, corredores, passagens intrincadas, confusas, difíceis de encontrar uma saída. Por outro lado, lembra embaraço, confusão, encruzilhada, complicação. Há um terceiro sentido para o termo: o labirinto do ouvido interno. Na atualidade, muitos jogos e brinquedos são baseados no modelo do labirinto.
Santa Júlia Billiart, do período do final da Idade Média (1751) e início da Era Moderna (1816) conheceu a pedagogia dos labirintos. Os mesmos, então, eram conhecidos como caminhos para Deus. Na catedral de Amiens, na França (construída no século XIII), cidade de 25.000 habitantes na época em que ela viveu, era sede de bispado e já tinha uma grande catedral. Neste centro urbano Júlia fundou a Congregação das Irmãs de Notre Dame, frequentava a Catedral, na qual, além de outros recursos didáticos, havia um famoso labirinto. Tendo presente que, neste período histórico, quando ainda havia muitas pessoas que não tinham acesso à leitura e à escrita, imagens, esculturas e labirintos favoreciam a evangelização das pessoas, bem como a oração.
Júlia, bem como as primeiras Irmãs de Notre Dame, com certeza, faziam o caminho do labirinto, usando-o como recurso didático, que favorece o auto conhecimento, a concentração, a persistência, a busca do encontro de si mesmo e do encontro com o bom Deus. O centro do labirinto sempre tem um sinal indicativo de chegada, de cerne, de coração, de plenitude, de topo, de etapa vencida, de vitória. No caso do labirinto da Catedral de Amiens encontra-se uma grande cruz, indicativa de que Jesus Cristo venceu e triunfou sobre o labirinto do mal. Em torno da cruz – que também tem o formato de colunas – há quatro imagens de santos e de anjos, vencedores do mal, por terem seguido Jesus Cristo no labirinto da vida. E com Ele, chegaram ao cume, à vitória do bem sobre o mal, à ressurreição. O centro do labirinto é também símbolo do Monte Tabor, no qual Jesus se transfigurou (Mateus 17,1-9, Marcos 9, 2-8 e Lucas 9,28-36 e II Pedro 1:16-18). Fazendo o próprio caminho do labirinto, ao chegar ao centro do mesmo, como Jesus e os Apóstolos no Tabor, não é possível ficar lá, indefinidamente. Iluminado e esclarecido, é preciso fazer o caminho da volta, que se supõe novo, diferenciado do caminho da ida. É uma caminhada de solidão e solicitude, mas não sozinha: vai-se por inteiro, encontra-se consigo mesmo, dialoga com Deus e volta por outro caminho para o seu país, como os Reis Magos (Mateus 2, 1-12).
O labirinto se constitui num caminho para Deus, um caminho para o bom Deus! Quantas vezes Santa Júlia Billiart o terá percorrido até estar completamente inundada da certeza, da experiência do bom Deus, que caminha com a humanidade dentro do labirinto?! A bondade de Deus é graça, mas é também um processo de vida, no labirinto da história.
Que Santa Júlia Billiart nos inspire para a persistência nos cruzamentos do labirinto planetário, que nos é dado viver!
Trilhar o labirinto da e na senda da vida é graça sobre graça, nos ensina a santa dos calçados desgastados.