Bondade histórica

Por: Irmã Loiva Urban – diretora do Colégio Notre Dame Ipanema

JULIAAo atentarmos para a história da bondade, o exercício, o caminho trilhado pela mesma no percurso do tempo e do espaço, sempre nos  foi e é revelado por um ou mais sujeitos históricos, concretos. A  virtus,  virtude da bondade,  suave e forte ao mesmo tempo, é originante e causadora de um efeito transformante e transfigurador. A bondade, peculiaridade de Santa Júlia Billiart, pode ser rastreada na história da criação, desde antes do big bang. A bondade misericordiosa de Deus Criador estava lá, no início, pondo os substratos passíveis de evolução no tempo das trevas, no tempo da luz, das águas, dos seres vivos, do ar, dos solos, das rochas, dos metais, das lavas vulcânicas…  A bondade de Deus está no começo, mas também antes do princípio dos tempos, durante o caos apocalíptico, depois da energia, na criação e evolução do ser humano, feito à Sua imagem e semelhança.

A bondade de Deus caracteriza o primeiro capítulo do livro do Gênesis: relato da criação. O texto, um mito, um hino litúrgico, uma sequência histórico-poética da criação do universo, tem um refrão que se repete sete vezes: “… e Deus viu que era bom…” (Gn 1, 10; 12; 18; 21; 25; 31). A bondade na história da evolução, na  Bíblia, nos tempos e espaços do universo, do ser humano sempre está presente e aparece com uma dupla característica: é suave e é forte simultaneamente. A bondade é resiliente  e graciosa. Apresenta-se como delicada e vigorosa. A bondade de Deus se manifesta em  Jesus Cristo, que se fez ser humano: “… a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, se manifestaram…” (Tito 3, 4) rezamos na festa do Natal.

Santa Júlia Billiart (1751-1816,  natural da Picardia, França)  experienciou a bondade na história de sua vida e de sua paralisia, na história da revolução francesa, na história de seu exílio, na história da arte do Belo Deus na Igreja de Amiens…  Maria Rosa Júlia Billiart intuiu, captou, experienciou, entendeu, pôs em prática a bondade, originada e oriunda  antes do big bang, antes do Gênesis, antes do Século das Luzes. A bondade de Deus precede todas as antecedências.  E porque ela assimilou a profundidade do bom Deus na sua vida e na história,  ela compreendeu –  e essa  é sua contribuição histórico-carismática original – que a bondade não vem sozinha: a bondade vem sempre acompanhada da firmeza, da fortaleza, da resiliência, da superação, da coragem, da robustez, da persistência. A santa dos sapatos rotos confirma, com sua vida, o que São Paulo recomenda: “Sede bondosos e compassivos uns para com os outros… “ (Efésios, 4, 32).

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