200º Aniversário da morte de Santa Júlia Billiart

Júlia Billiart e o sentido da vida

Por: Irmã Loiva Urban – diretora do Colégio Notre Dame Ipanema

850Ter ou não uma letra trocada no sobrenome: Billiart x Billiard  pode  ser um achado curioso na pesquisa da árvore e das histórias genealógicas. Depois de 265 anos, uma certidão de nascimento trouxe à luz um detalhe que é significativo sob vários aspectos, particularmente para as pessoas que pertencem à família Notre Dame, bem como para pesquisadores e historiadores. Júlia possivelmente nunca soube desta troca de letras, ela mesma com pouca escolaridade. O sentido da vida para Júlia passou por uma genealogia familiar, por uma  história de Igreja, por uma história francesa em revolução, por uma semente em perspectiva, cultivada de forma não convencional: educação com bondade e firmeza. Nesse empreendedorismo de fé  eclesial, Maria Rosa Júlia Billiart encontrou o sentido e a principal motivação de vida.  No contexto de então, a mulher que vendera tecidos montada em cavalo, entendeu e assumiu, comunitariamente, o contato com um todo maior, mais profundo e mais abrangente, que pôs em perspectiva  sua situação de paralítica, perseguida por cinco anos.

Em destaque no mapa da França está a cidade de Compiègne, local  onde Júlia se manteve disfarçada por  três anos
Em destaque no mapa da França está a cidade de Compiègne, local onde Júlia se manteve disfarçada por três anos.

O sentido da vida, uma vez clareado no contexto social,  necessita de ser nutrido e monitorado permanentemente. A crise de sentido é parte inerente à existência histórica de cada ser humano.  Quando os revolucionários franceses procuravam a “bruxa” de Cuvilly, a fim de eliminar sua influência na contra corrente ideológica, ela foi escondida em diversos lugares, sempre levada por outras pessoas, uma vez que suas pernas se recusavam a andar. Em Compiègne  ela ficou disfarçada por três anos, (1791-1794) tendo que trocar de local por  cinco vezes. O sentido da vida foi posto à prova. Júlia teve a sua crise e pediu ao bom Deus: “Senhor, não quereis dar-me agasalho no vosso paraíso, visto que, na terra, não encontro mais?” [1] Ela também registra que, em toda a sua vida, não sofrera tanto como na noite de inverno, em que fora  descarregada da carroça que a levava embaixo do feno, e ficou à beira da estrada até ao amanhecer. Congelada em Compiègne!

Terminada a Revolução francesa sobraram despojos de fome, miséria e abandono. Na era napoleônica,  Júlia e outras companheiras alfabetizam crianças, ensinam catecismo e decidem ir à grande cidade de Amiens[2], onde é fundada a Congregação de Notre  Dame, com um sentido de vida pessoal e  do grupo de ir ao mundo inteiro anunciar a mensagem do bom Deus. A crise de sentido foi redirecionada, fortalecida para uma missão sem fronteiras e para além da história. Desse redirecionamento faz parte a cura de Júlia: ela voltou a andar,  favorecendo o que entendera como sentido e missão da vida: movimentar-se e mostrar pela palavra, a alegria e  a ação que a educação é um meio para testemunhar e anunciar o projeto de Jesus Cristo.

[1] Apud Loiva Urban, 2003, p. 42.

[2] Na época com 25.000 habitantes.

Leia as colunas anteriores:

Billiard: a surpresa da certidão de nascimento
As boas mãos de Deus, as boas mãos de Júlia
Júlia e o labirinto da Catedral de Amiens
Bondade Histórica
Belo e bom Deus
Morreu a santa
Santa Júlia e o girassol
Simples e bom
Júlia Billiart: A Santa que cortou o trigo
Dois séculos da morte de Santa Júlia Billiart
Em 2016 são celebrados os 200 anos de morte de Santa Júlia Billiart